Manual das coisas

que fazem coisas

Era mês de março deste ano. O momento: pausa. O som, silêncio? O silêncio mais barulhento que poderíamos escutar com força planetária. De repente a indicação era “fiquem em casa”... O que será? Como vamos dar sequência em um projeto de pesquisa a distância? Como vamos propor encontros com materialidades tão importantes para a vida na 1ª infância de modo remoto?

O jeito era se reinventar. Para quem trabalha com atmosferas investigativas isso não é um problema mas um caminho.

No livro Educar na Curiosidade, de Catherine Lécuyer, o capitulo 15 _ A BELEZA_ p.141, Começa com a pergunta “O que causa curiosidade?” E discorre a investigar o que existe no ser das coisas que possa provocar curiosidade. A autora acredita ser a BELEZA uma das respostas. Dessa afirmação nasce outra pergunta, “O que é beleza?”. Diriam os filósofos ser a potencia do Bem e da Verdade, assim, para uma criança o belo pode ter a ver com tudo aquilo que seja uma verdade da sua natureza, seus ritmos...e muito dessa relação surge do contato empírico com a natureza. Observar a natureza orienta ritmos internos por exemplo. Sua materialidade – temperatura, fragrâncias, texturas, luminosidades, desenhos, quantidades, agrupamentos, cores, camadas, movimentos, seus ciclos ensinam o tempo. Ela nos ensina a estar presente e a perceber presenças.

Voltemos a curiosidade que aproxima do belo, harmonia e ritmos internos... Eu precisava observar, escutar meus grupos de trabalho e sentir, perceber quais necessidades existiam ali. Quais eram as potências investigativas? Como estavam suas naturezas agora? _ Gandhy Piorski fala lindamente sobre a natureza das coisas e das pessoas, sobre perceber e respeitar as naturezas.

Esse movimento não é solitário. A atelierista conta com a partilha da professora da turma. Assim, depois de muitas conversas decidimos que levar a possibilidade do encontro com materialidades e seus desdobramentos seria muito luminoso para as turmas de infantil 4, na nossa escola. Assim a ideia: propor um MANUAL DE COISAS QUE FAZEM COISAS.

Neste possível caminho de pesquisa, as crianças foram convidadas a investigar as possibilidades de ação e as características de coisas do mundo. Naturais ou artificiais. Na caminhada, deveriam encontrar em casa coisas que fazem coisas e contar o que as coisas faziam, como girar, ajudar a perceber o passar do tempo, riscar, iluminar e fazer sons... Foi possível desenhar caminhos de pensamentos estéticos usando apenas a disposição e o envolvimento de cada criança e suas famílias, principalmente. Como alimento estético tivemos a oportunidade de conhecer o trabalho do artista Guto Lacaz, que chegou a ver e comentar os experimentos de nossas crianças. Crescemos também conhecendo mais do trabalho do artista Julio Le Parc.

Com essa busca, nasceu o material que vocês podem contemplar nesta mostra.

Animem-se a descobrir o que as coisas podem fazer além do que naturalmente fazem.

 

 

PROFESSORA ATELIERISTA JULIANA CARNASCIALI - JULLIPOP 

© 2020 por Carandá VIvavida 9a Imaginar-te - Conexões em (re)construção - Montagem/Design Juliana Carnasciali - Jullipop e Rosana Rocha