CRÔNICAS

5º ano A

MANHÃ

Emergência

Luís Fernando Veríssimo

É fácil identificar o passageiro de primeira viagem. É o que já entra no avião desconfiado. O cumprimento da aeromoça, na porta do avião, já é um desafio para a sua compreensão.

- Bom dia...

- Como assim?         

Ele faz questão de sentar num banco de corredor, perto da porta. Para ser o primeiro a sair no caso de alguma coisa dar errado. Tem dificuldade com o cinto de segurança. Não consegue atá-lo. Confidencia para o passageiro ao seu lado:

- Não encontro o buraquinho. Não tem buraquinho?         

Acaba esquecendo a fivela e dando um nó no cinto. Comenta, com um falso riso descontraído: "Até aqui, tudo bem.". O passageiro ao lado explica que o avião ainda está parado, mas ele não ouve. A aeromoça vem lhe oferecer um jornal, mas ele recusa.

- Obrigado. Não bebo.         

Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar voo, ele é aquele com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! no rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela. Mas o pior está por vir. De repente, ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz. "Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás."

- Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.

Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.

- Isto é apenas rotina, cavalheiro. -

Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai, meu santo.         

"No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos."

- Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?    

"Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente." -

Respirar normalmente?! A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças — e ele quer que a gente respire

normalmente.         

"Em caso de pouso forçado na água..."

- O quê?!         

“...os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e..." - Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!

- Calma, cavalheiro.

- Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!

- Cavalheiro, por favor. Fique calmo.

- Eu estou calmo. Calmíssimo. Você é que está nervosa e, não sei por que, está tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que, aliás, também parece consternado e levemente azul.

- Calma! Isso. Pronto. Fique tranquilo. Não vai acontecer nada.

- Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante.

- Certo. Ninguém mais vai falar em banco flutuante.       

Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a respiração, e pede desculpas. Perdeu a cabeça.

- É que banco flutuante é demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado. Fazendo sala no meio do oceano Atlântico!        

A aeromoça diz que vai lhe trazer um calmante e aí mesmo é que ele dá um pulo:

- Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa!

 Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Ele fica rígido na cadeira. Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço. Pergunta se pode receber a sua comida em dinheiro. Deixa cair a cabeça para trás e tenta dormir. Mas, a cada sacudida do avião, abre os olhos e fica cuidando a portinha do compartimento sobre sua cabeça, de onde, a qualquer momento, pode pular uma máscara de oxigênio e matá-lo do coração. De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.

- Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo.

Neste momento, à nossa direita, podemos ver a cidade de...

Ele pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto:

- Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!       

Emergência

Clara, João Santo Amore, Maria Laura,

Pedro Umeki e Ulisses

[…]

Lembro-me de uma história que aconteceu com uma conhecida…

Ela estava economizando dinheiro há bastante tempo para fazer sua tão sonhada primeira vigem de avião. Por conta da pandemia, o voo foi cancelado, porém, quando foram liberando as coisas, ela teve a chance de remarcar. Mas, com medo do Covid e da nova experiência, desconfiava e estranhava tudo.

– Bom dia... – diz a aeromoça estendendo a mão.

– Como assim? Você quer apertar minha mão?? Metade dos germes são concentrados na mão!

Fez questão de sentar num banco de corredor, perto da porta, para ser a primeira a sair no caso de alguma coisa dar errado. Tem dificuldade com o cinto de segurança. Não consegue atá-lo, pois sua mão estava melada de álcool em gel. Confidencia para o passageiro ao seu lado:

– Não encontro o lenço. Não tem lencinho? Que absurdo, estamos em meio de uma pandemia!

Acaba esquecendo, e limpando com a camisa. O passageiro ao lado diz:

– Senhora, esta empresa é de alta qualidade, não deixariam um infectado entrar!

A aeromoça vem lhe oferecer um álcool em gel, mas ela recusa.

– Obrigada, tenho o meu próprio.

Quando o avião começa a correr pela pista, antes de levantar voo, ela é aquela com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu no rosto! Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela. Mas o pior está por vir!

De repente, ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz: "Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás."

– Emergência? Que emergência? Por acaso tem um infectado aqui para ter emergência?

– Isto é apenas rotina, madame.

– Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai, meu santo, não me toque!

“No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos…”

– Que história é essa? Que máscara? É para Corona?

“Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente…”

– Respirar normalmente?! E se eu respirar o ar dos contaminados?

“Em caso de pouso forçado na água…”

– O quê?!" Na água, o Coronavírus se locomove mais rápido!!

“Os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e…”

– Essa não! Como vamos manter o distanciamento no mar? Tem muitas ondas lá!

– Calma, madame!

– Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!

– Por favor. Fique calma.

– Eu estou calma! Calmíssima! Mas... Você está sem máscara?!?!

– Calma! Isso… pronto, já pus a máscara. Fique tranquila. Não vai acontecer nada.

– Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante.

– Certo! Ninguém mais vai falar em banco flutuante

– É que banco flutuante é demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado, fazendo aglomeração no meio do Oceano Atlântico!

– Calmante, quer?

– Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa!

Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-la. Ela fica rígida na cadeira. Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço, com medo de estar infectado.

Quando a aeromoça oferece comida para o homem ao seu lado, ele começa a tossir.

– Socorro!! Ele está tossindo! Me troquem de lugar, me troquem de lugar!!

– Madame, é que eu tenho alergia a amendoim.

– Pode tossir, mas não perto de mim! Se você quiser eu até empresto meu álcool em gel!!

De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.

“Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo. Neste momento, à nossa direita, podemos ver a cidade de...”

Ela pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto:

– Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!

Todos do avião estavam sendo solidários até aquele momento, pois sabiam que ela estava com medo do avião e de todos estarem contaminados, mas não aguentaram e começaram a rir.  

O problema da primeira viagem

Arthur, Henrique, Isadora, Lorena e Rafael

Uma pessoa, em tempos de coronavírus, precisou fazer uma viagem às pressas para ajudar um parente que ficou muito doente. Seria sua primeira viagem de avião.

No dia do embarque, antes de entrar no avião, um médico mede a temperatura e diz:

– Bom dia...

– Como assim? Bom dia?

Ele faz questão de sentar num banco da frente, longe das pessoas e perto da porta, para ser o primeiro a sair no caso de alguém estar com os sintomas do vírus. Tem dificuldade com o cinto de segurança. Não consegue atá-lo. Confidencia para o passageiro ao seu lado:

– Não encontro o buraquinho. Não tem buraquinho?

Acaba esquecendo a fivela e dando um nó no cinto. Comenta, com um falso riso descontraído: "Até aqui, tudo bem.". O passageiro ao lado explica que

o avião ainda está parado, mas ele não ouve. O comissário vem lhe oferecer um álcool em gel, mas ele recusa.

– Obrigado. Já tenho meu kit antivírus... E você já tocou nele!

Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar voo, ele é aquele com os olhos arregalados, a sua respiração rápida e desesperada, e a expressão de Santa Mãe do Céu Socorro! no rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. Deu um grito e fechou a capa da janela, fica agitado com o pé batendo no chão e tenta se recuperar pedindo um chá para a comissária.

– Bom dia senhor, o que deseja?

– M-ME DÁ UM CHÁ DE CAMOMILA!

– Desculpe, senhor, apenas temos café e energético...

– Ok... me dá um!

Mas o pior estava por vir.

"Senhores passageiros, sua atenção, por favor”. Nesse momento, a comissária de bordo vai para o meio do corredor e faz uma demonstração, de rotina, do sistema de segurança do avião e os protocolos em relação ao novo COVID-19.

“Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás.”

– Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.

– O comissário de bordo, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.

– Isto é apenas rotina, cavalheiro.

– Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai, meu santo.

“No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos.”

– Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?

“Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente."

– Respirar normalmente?! A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças, esse vírus e ele quer que a gente respire normalmente?

Os passageiros começam a achar que ele pegou o vírus, de tão maluco que ele estava.

“Em caso de pouso forçado na água...”

– O quê?!

“...os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e...”

– Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!

– Calma, cavalheiro.

– Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!

– Cavalheiro, por favor. Fique calmo.

– Eu estou calmo. Calmíssimo! Você é que está nervoso e, não sei por que, está tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que, aliás, também parece consternado e levemente azul.

– Calma! Isso. Pronto. Fique tranquilo. Não vai acontecer nada.

Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a respiração, e pede desculpas.

– Perdi a cabeça, é que banco flutuante é demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado. Fazendo sala no meio do oceano Atlântico!

A comissária diz que vai lhe trazer um calmante e aí mesmo é que ele dá um pulo:

– Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa! Vocês acham que estou maluco? Você é que precisa de um calmante!

Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Mas, a cada sacudida do avião, começa a gritar e deixa toda a tripulação atordoada. De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.

– Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo. Passaremos por nuvens de grande turbulência.

Ele pula outra vez da cadeira e grita desesperadamente:

– Ai, meu Deus! O avião vai cair!!!!!!! O avião vai cair!!!!!

A aeronave inteira começa a gritar, pois, como não ouviram o que o comandante disse, entenderam que o avião ia cair em poucos segundos.

– O avião vai cair!!!! Socorro!!!

– Meu Deus do céu!!!

Foi uma gritaria tão grande, que nem perceberam que o avião já tinha pousado.

Quando chegou na casa de seu parente e perguntaram a ele como foi o voo, ele respondeu com a maior tranquilidade:

– Foi ótimo, correu tudo bem, até foi divertido.

 

FIM

Vovó caiu na piscina

Carlos Drummond de Andrade

Noite na casa da serra, a luz apagou. Entra o garoto:

- Pai, vó caiu na piscina.

- Tudo bem, filho.

O garoto insiste:

- Escutou o que eu falei, pai?

- Escutei, e daí? Tudo bem.

- Cê não vai lá?

- Não estou com vontade de cair na piscina.

- Mas ela tá lá...

- Eu sei, você me contou. Agora deixa seu pai ficar descansando.

- Tá escuro, pai.

- Assim até é melhor. Eu gosto de fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede à sua mãe para acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.

- Pai...

- Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro Rio, e você custa muito a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.

- Vó tá com uma vela.

- Pois então? Tudo bem. Depois ela acende.

- Já tá acesa.

- Se está acesa, não tem problema. Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta direitinho pra casa. Não vai errar o caminho, a distância é pequena e você sabe muito bem que sua avó não precisa de guia.

- Por que cê não acredita no que eu digo?

- Como não acredito? Acredito sim.

- Cê não tá acreditando.

- Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse: tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?

- Não, pai, cê não acreditou ni mim.

- Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso. Eu acreditei, viu? Estou te dizendo que acreditei. Quantas vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei, mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.

- Não te chamei de mentiroso.

- Não chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma bobagem. Sua avó caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.

- Ô pai, cê é de morte!

O garoto sai desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada.

Daí a pouco chega a mãe:

- Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?

- Até você, Fátima? Não chega o Nelsinho vir com essa ladainha?

- Eduardo, está escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo que tirem ela de

lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando muito, e se não for depressa ela vai ter uma coisa! Ela morre, Eduardo!

- Como? Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído.

Saiu correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d’água:

- Mamãe, me desculpe! O menino não disse nada direito. Falou só que a senhora caiu na piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.

- Está bem, Eduardo – disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa.

– Mas de outra vez você vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito, você é que teve um acesso de burrice, meu filho!

Vó que caiu na piscina

Athina, Felipe, João Marques, Laura e Rafaela

 

Era uma noite muito escura e a vó estava em seu quintal quando uma mosca começa a rondá-la.

- “Bem”, pega a raquete aí na sala!

- Aqui está, querida - fala o avô.

- Essa mosca não passa de hoje!

A avó, tentando matar a mosca, se desequilibra e cai na piscina.

- Amor, socorro, eu caí na piscina e não consigo sair!

- Vou te ajudar… não consigo, minha coluna dói muito. Vou pegar uma vela para você, essa luz não volta tão cedo.

- “Bem”, ligue para o nosso filho e peça ajuda a ele!

*telefone tocando*

- Filho, vai atender o telefone, estou lendo aqui.

- Tá bom, pai.

- Alô?

- Oi, meu neto, seu pai tá ai?

- Tá sim, mas está meio ocupado.

- Então, diga para ele vir aqui em casa. Sua vó caiu na piscina tentando matar uma mosca.

- Como assim caiu?

- Caiu, não mergulhou. Simplesmente caiu tentando matar a mosca!

- Vou avisar, tchau.

-Tchau - diz o avô.

O filho foi direto no pai:

- Pai, vovó caiu na piscina!

- Tudo bem, filho.

O garoto insiste:

- Escutou o que eu falei, pai?

- Escutei, e daí? Ela quis dar um mergulhinho, só isso.

- Você não vai na casa dela?

- Não estou com vontade de sair de casa e também estamos de quarentena!

- Mas ela tá lá...

- Eu sei, você já me contou. Agora deixe seu pai terminar essa coleção de livros.

- Mas lá tá escuro, pai.

- Assim é até melhor. Sua avó gosta de nadar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, tudo bem, ela sabe nadar. Me deixa aqui descansando.

- Pai, mas...

- Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar. Amanhã cedinho a gente vai lá para vê-la e você demora muito para acordar. Não quero atrasar a ida por sua causa.

- Por quê cê não acredita no que eu digo?

- Como não acredito? Acredito sim.

- Cê não tá acreditando.

- Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse que tudo bem. O que você queria que eu fizesse?

- Não, pai, cê não acreditou em mim.

- Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso, já disse que acreditei. O que você quer que eu diga? Fique sabendo que o seu pai não gosta de mentir.

- Mas foi o vovô que disse!

- Pois bem, ele também não mente.

- Não disse que vocês mentiram!

- É verdade, mas é o que está parecendo.

- Poxa, pai, não acredita em mim? A vovó vai se afogar assim!

O garoto sai, triste. O pai não entende nada.

Daí a pouco chega a mãe:

- Eduardo, você sabe que sua mãe caiu na piscina?

- Sei sim, e daí? Como ficou sabendo?

- Seu pai me ligou e contou tudo, contou que quando ela quis bater na mosca, desequilibrou e caiu!

- Como assim? Por que aquele menino não me contou isso? Ele não disse que ela se desequilibrou e caiu!

- Ele disse isso, eu ouvi, você que não...

Nem esperou, pegou o filho pelo braço, saiu correndo e foi para o carro.

No meio do caminho, lembrou da máscara:

- Poxa, agora vamos ter que voltar!

Voltaram, pegaram as máscaras e correram para o carro de novo

- Pai, esquecemos o álcool em gel!!

- Verdade, vamos voltar de novo.

Ele volta e deixa o filho no carro, pega o álcool e pé na estrada!

Ao chegar lá, vê a mãe na piscina, tentando sair:

- Viu, pai, eu te disse, você não acreditou que a vovó caiu na piscina!

- Caramba, você estava certo, ela escorregou mesmo!!

Ele tenta pegá-la, não consegue, de novo, não consegue.

- Nossa, mãe, o que você estava fazendo, você não fez pilates hoje à noite?

- Pai, quem liga? Pega ela logo!

- Tá, bom, tá bom… 3, 2, 1!

- Ufa!! Terra firme!

- Vovó! Que saudades!!!!! Como você tá?

- Não tão bem, no melhor momento, porque estou toda molhada nesse frio infernal.

- Como você está passando a quarentena?

- Estou fazendo só as coisas do cotidiano, mas deixa eu te contar uma história.

Vovô e vovó cairam na piscina

Julia, Mariana, Pedro Ferrari, Thomás e Victória

 

Uma família de São Paulo queria alugar uma casa no interior, em meio à pandemia, para sair desse caos por conta do coronavírus, achando que seria mais seguro.

Quando chegaram à noite na casa, levaram as malas, foram conhecê-la, pois tinham alugado pela internet, quando viram que tinha acabado a luz. Perceberam que só na casa deles havia acontecido isso. Então, o pai acendeu a lanterna do celular para tentar encontrar onde ficava a caixa de luz e ver se tinha alguma ferramenta que ele pudesse usar. Pediu para todos irem para os fundos da casa, onde ficava a piscina, pois lá era mais claro. A mãe saiu para ir ao mercado comprar velas.

Como a menina estava muito ansiosa para entrar na piscina, seus avós a acompanharam. Eles pegaram uma cadeira para sentarem na beira da piscina e vigiarem a neta. Sem querer, se desequilibraram e, como estavam na borda da piscina, caíram dentro d’agua. Percebendo que a piscina era funda e os avós não sabiam nadar, a menina foi rapidamente chamar o pai.

- Paiiiiiiiiiiiiiiii!!!! A vovó e o vovô caíram na piscina!!!

- Minha filha, não se preocupe eles só estão se divertindo.

- Pai, você não vai lá com eles?

- Estou tentando resolver o problema da luz e não quero me molhar.

- Não, pai, você não está me entendendo, eles estavam sentados no escuro e...

- Minha filha, deixa eles.

- Pai, me escuta! Eles caíram sem querer!

- Filha, volte para a piscina e se divirta!

- Não, pai! Eles caíram e não conseguem...

Então o pai olha o relógio e diz:

- Filha, você sabe que horas são?? Já está tarde e nem nos ajeitamos ainda, para de me incomodar.

- Mas, pai!

- Mas nada, Luana, vai ficar com seus avós!

- Pai, me escuta! É justamente sobre a vovó e o vovô que quero falar!

- Já estou perdendo a paciência com você!

A mãe da menina chega do mercado, vê o que está acontecendo e começa a surtar com o pai.

- Mauricioooooo, seus pais caíram na piscina e precisam da sua ajuda! Sua filha provavelmente está tentando te avisar e você nem aí para ela!

- Ela não me explicou direito!

- Vai logo, Mauricio!

Ele saiu correndo e foi ajudar seus pais.

- Finalmente, meu filho - disse a avó.

- Mãe, é que, é que...

- Sua filha estava tentando falar com você e você nem aí para ela! Você tem que prestar mais atenção no que as pessoas dizem!

Após essa confusão toda, finalmente, a luz voltou, eles arrumaram as coisas e foram dormir.

5º ano B

MANHÃ

A bola

Luís Fernando Veríssimo

 

O pai deu uma bola de presente ao filho, lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.

O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “Legal!”. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.

— Como é que liga? — perguntou.

— Como, como é que liga? Não se liga.

O garoto procurou dentro do papel de embrulho.

— Não tem manual de instrução?

O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.

— Não precisa manual de instrução.

— O que é que ela faz?

— Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.

— O quê?

— Controla, chuta…

— Ah, então é uma bola.

— Claro que é uma bola.

— Uma bola, bola. Uma bola mesmo.

— Você pensou que fosse o quê?

— Nada, não.

O garoto agradeceu, disse “Legal” de novo e, dali a pouco, o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de bip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente.

O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina.

O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.

— Filho, olha.

O garoto disse “Legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em Inglês, para a garotada se interessar.

O vídeogame

Antonia, Antonio, Aquiles, Clara Sorrentino, Daniel, Isa, Julia, Paulo Cesar, Maria Fernanda e Max

 

Um adolescente no meio da pandemia, depois de higienizar as mãos com álcool gel, procura algo para se distrair, senta-se no sofá para ler um livro e acaba cochilando. Sonha com uma máquina do tempo, resolve

viajar para 1979 e vê seu pai em tempo de criança. O garoto pensou numa lembrança em que o pai dava uma bola a ele, então, teve a ideia de levar um videogame para ele.

Agora só faltava ir para o passado, pegou alguns jogos, o videogame e sua mochila, então, o garoto partiu em sua jornada ao passado.

Estava lá, em 1979, em um quarto bem pequeno, com janelas grandes, na porta se avistava uma placa com os dizeres “Antony”, o nome de seu pai, então soube que estava no lugar certo.

O seu pai não estava no quarto, então, o garoto olhou da janela do quarto do Antony… lá estava ele jogando bola, uma número 5 oficial de couro. Ele foi até o quintal ver seu pai, que ainda era uma criança, estava diferente, usava uma camiseta que mais parecia de gala do que de futebol, um short curto igual a uma cueca, uma chuteira que aparentava uma bota e uma bola que lembrava uma de futebol americano.

O garoto desceu as escadas para encontrar seu pai e entregar o “brinquedo do futuro”.

Quando Antony avistou seu filho (que naquela época não era) ficou assustado, porque seria meio estranho uma pessoa que nem te conhece sair de sua casa e ir até você... né?

Por um instante, o menino parou e pensou... Nossa!!! Esqueci a máscara, preciso lavar as mãos e passar álcool gel no presente antes de entregá-lo ao meu pai. Mas logo se lembrou que estava no passado, e não em tempos de Covid.

Logo Antony perguntou:

- Quem é você?

- Sou... um amigo... do seu primo, e eu vim aqui para te presentear...

- Por quê? Eu nem te conheço!

- Porque seu primo disse que você merece.

- Tá bom. O que é?

- Um videogame.

O “pai” agradeceu, desembrulhou o videogame e disse:

- Interessante... Ou o que os garotos daquela época diziam quando ganhavam um presente e não queriam magoar as pessoas.

Antony viu os controles sem entender nada, então, começou a chutá-los. E o “filho” gritou:

- Não... não faça isso!!!

- Como... como é que se usa? — perguntou. - Como é que usa? Não se usa, se liga!!! Ele viu um manual de instruções e não entendeu nada. - Manual... de... instrução? Para que serve? O “filho” começou a se animar e ensinou o “pai” a como jogar. Antony aprendeu rapidamente. Eles ficaram jogando por muitas horas, ele realmente gostou dos jogos, principalmente, do Monster Baú. Pena que Antony não poderá comprar novos jogos porque os tempos são outros. Mas o garoto lembrou que precisava voltar para o futuro.

O filho falou:

- Bom, foi muito legal te conhecer, mas o que é bom dura pouco... Tenho que ir, nos vemos por aí.

O garoto foi direto ao quarto do Antony, voltar no tempo.

Sem entender nada, o pai o seguiu e chegou a tempo de ver o adolescente entrando na máquina… então ele disse, quase voltando ao seu tempo:

- Tchau, pai...

Antony não entendeu, mas seguiu em frente. E sempre que tem oportunidade conta essa história.

Aspirador de pó

Fernando Sabino

 

Antes que eu lhe pergunte o que deseja, o gordinho começa a exibir-me uma aparelhagem complicada, ainda na porta da rua. São tubos que se ajustam, fio para ligar na tomada, escovinhas de sucção e outros apetrechos.

– Entre – ordenei.

Ora, acontece que jamais prestei sentido na existência dos aspiradores de pó.

Por isso é que fui logo cometendo a imprudência de convidar o gordinho a exibir-se de uma vez no interior da sala. Na porta da rua venta e faz muito pó, disse-lhe ainda, tentando um trocadilho infeliz. Entramos os dois para a tradicional peleja entre comprador e vendedor.

Vi o gordinho desdobrar-se, suando, estica o fio, não dá até a tomada, arrasta a cadeira um pouco para lá, não é isso mesmo? Ah, sim, com licença, quer limpar esse tapete?

É um tapete que arrasto comigo há anos por todos os lugares em que venho morando. Já abafou meus passos em dias de inquietação, já recebeu alguns pulos meus de alegria e manchas de café, de tempo, de poeira dos sapatos. Pois olhe só – em dois tempos o gordinho pôs a engenhoca a funcionar, esfrega daqui e dali, praticamente mudou a cor do meu tapete.

– Agora é que o senhor vai ver – anunciou, feliz, revelando-me a existência, dentro do aparelho, de uma sacola onde o pó se acumulava. Exibiu-me seu conteúdo com um sorriso de puro êxtase.

Aquilo me decepcionou: pois se tinha de despejar o pó no lixo, por que não recolhê-lo de uma vez com a vassoura? Evidente burrice da minha parte – o gordinho devia estar pensando: com certeza eu esperava que o pó se volatilizasse dentro do aspirador, num passe de mágica?

Deixei que ele me enumerasse as outras aplicações do miraculoso aparelho: servia para escovar um terno, por exemplo, quer ver? E voltou para mim o cano da arma, que num terrível chupão quase me leva a manga do paletó.

– Serve também para massagens. Com sua licença – e passou-me no rosto a ponta do tubo. Minha pele foi repuxada sob a improvisada ventosa, deslocando-se ruidosamente num violento beijo de cavalo.

– Basta! – protestei: – Estou convencido. Compro o aspirador.

– E digo mais – prosseguiu ele, sem me ouvir: – Serve para refrescar o ambiente. Dúvida? E só virar ao contrário…

– Não duvido não. Já está comprado. – … e funciona como um perfeito ventilador.

Fui buscar o dinheiro, paguei e despedi sumariamente o gordinho que, perplexo, continuava ainda a recitar sua lição:

– Aspira o pó dos lugares mais inacessíveis: aspira atrás das estantes, aspira cinzeiros, aspira…

– Obrigado, obrigado – e fechei a porta atrás dele.

Passei o resto da tarde me distraindo com a nova aquisição. De todas as maneiras: aspirei cinzeiros, estofados, cortinas, ternos, aspirei atrás das estantes, fiz desaparecer, até o último grão, o pó existente na casa.

Então, tentei retirar das entranhas do aspirador a tal sacola, como o gordinho me havia ensinado. Para meu júbilo, estava bojuda como um balão. Só não me lembrei foi de desligar o aparelho que, como ele me havia ensinado também, virado ao contrário funciona como um perfeito ventilador: de súbito, explode no ar uma bomba de pó acumulado. Tudo voltou ao que era antes, fui à cozinha buscar uma vassoura. És pó e em pó reverterás – pensei comigo.

Aspirador de pó

Bianca, Manuela, Rafael Lugatto,

Rafael Ribeiro e Victor

 

Toca o telefone...

Antes que eu lhe pergunte o que desejava, o vendedor começa a falar-me de uma aparelhagem complicada. São tubos que se ajustam, fio para ligar na tomada, escovinhas de sucção e outros apetrechos.

– Olá – falei.

Ora, acontece que jamais prestei atenção na existência do aspirador de pó, mas nesse tempo de pandemia, ficando em casa todos os dias, senti a necessidade de comprar um para exterminar todo esse pó que está diante dos meus olhos.

Por isso é que fui logo cometendo a imprudência de atender o vendedor ao telefone exibindo-se como é tradicional na relação entre comprador e vendedor.

Mesmo estando à distância, imaginava um vendedor gordinho desdobrando-se e suando. Então, resolvi pedir uma ligação de vídeo, foi aí que percebi que o vendedor, do outro lado, esticava o fio e demonstrava o produto dizendo que não dá até a tomada, arrastando a cadeira um pouco para lá.

Disse a ele que tenho um tapete que arrasto comigo há anos por todos os lugares em que venho morando. Já abafou meus passos em dias de inquietação, já recebeu alguns pulos meus de alegria e manchas de café, de tempo, de poeira dos sapatos e agora, em tempos de confinamento, ele também é meu único companheiro.

– Agora é que o senhor vai ver – anunciou, feliz, revelando-me a existência, dentro do aparelho, de uma sacola onde o pó se acumulava. Dizendo-me que ali eu poderia guardar partes das lembranças deste meu amigo.

Aquilo me decepcionou: pois, quando o saco ficasse cheio, eu teria que colocar o pó no lixo e perderia as “lembranças” que ele sugeriu. Evidente burrice da minha parte – o vendedor devia estar pensando: com certeza eu esperava que o pó se transformaria em memórias dentro do aspirador, num passe de mágica!!!

Deixei que ele me mostrasse as outras aplicações do miraculoso aparelho: serve para escovar um terno, por

exemplo, quer ver? Pensei... Mas para que vestiria um terno se não posso sair de casa? E voltou para ele o cano da geringonça, que, num terrível chupão, quase leva a manga do paletó.

– Serve também para massagens. E mostrou-me um vídeo em que um cliente teve o rosto puxado pela ponta do tubo. E a pele dele foi repuxada sob a improvisada ventosa, deslocando-se ruidosamente num violento beijo de cavalo.

– Basta! – protestei – Estou convencido. Compro o aspirador.

– E digo mais – prosseguiu ele, sem me ouvir – Serve para refrescar o ambiente. Duvida? E só virar ao contrário…

– Não duvido não. Já está comprado. – … e funciona como um perfeito ventilador - continuou ele sem dar ouvidos.

Fui buscar o cartão, paguei e me despedi rapidamente. O vendedor continuava ainda a recitar sua lição:

– Aspira o pó dos lugares mais difíceis: aspira atrás das estantes, aspira cinzeiros, aspira…

– Obrigado, obrigado – e desliguei o telefone na cara dele.

Esperei dois dias para chegar o aspirador e chegou em uma certa tarde de segunda-feira. Acho que foi segunda-feira, já perdi a noção do tempo, ficando tanto tempo em quarentena.

Passei o resto da tarde me distraindo com a nova aquisição. De todas as maneiras: aspirei cinzeiros, estofados, cortinas, ternos, aspirei atrás das estantes, fiz desaparecer, até o último grão, o pó existente na casa. Enquanto fazia isso, conversava com o meu único

companheiro, meu tapete... Acho que estou ficando louco!!!

Então tentei retirar do aspirador a tal sacola, como o insistente vendedor me havia ensinado. Para minha surpresa, estava estufada como um balão. Só não me lembrei foi de desligar o aparelho que, como ele me havia ensinado também, virado ao contrário funciona como um perfeito ventilador: e, num susto, explode no ar uma bomba de pó acumulado. Tudo voltou ao que era antes, fui à cozinha buscar uma vassoura. És pó e em pó reverterás – pensei comigo.

No restaurante

Carlos Drummond de Andrade

 

– Quero lasanha!

Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultra minissaia – entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.

O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.

– Meu bem, venha cá.

– Quero lasanha.

– Escute aqui, querida. Primeiro escolhe-se a mesa.

– Não, já escolhi. Lasanha.

Que parada – lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro e depois encomendar o prato:

– Vou querer lasanha.

– Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.

– Gosto, mas quero lasanha.

– Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?

– Quero lasanha, papai. Não quero camarão.

– Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?

– Você come camarão e eu como lasanha.

O garçom aproximou-se e ela foi logo instruindo:

– Quero uma lasanha.

O pai corrigiu:

– Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.

A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:

– Moço, tem lasanha?

– Perfeitamente, senhorita.

O pai, no contra-ataque:

– O senhor providenciou a fritada?

– Já, sim, doutor.

– De camarões bem grandes?

– Daqueles legais, doutor.

– Bem, então me vê um chinite, e pra ela… O que é que você quer, meu anjo?

– Uma lasanha.

– Traz um suco de laranja pra ela.

Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.

– Estava uma coisa, hem? – comentou o pai, com um sorriso bem alimentado.

– Sábado que vem, a gente repete… Combinado?

– Agora a lasanha, não é, papai?

– Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?

– Eu e você, tá?

– Meu amor, eu…

– Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.

O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.

A pizza

Clara Morais, Giuseppe, Gustavo, Luis, Mariana, Martin, Matias e Rafaela

 

- Queremos pizza!

Aqueles pequenos projetos de mulheres nem queriam saber as outras opções do delivery ou até mesmo das opções dos pais. Estavam decididas que queriam pizza.

Em tempos de pandemia, não está nada fácil para as famílias... e para os pais dessas meninas não está diferente. As mães são médicas e estão trabalhando na linha de frente cuidando de pacientes infectados pelo Coronavírus. Elas estão morando em um apartamento, Carlos e seu irmão, com suas filhas, em outro.

Na hora do jantar, depois de um dia de trabalho remoto, estão cansados e com fome, e ninguém tinha

disposição para cozinhar. Então, Carlos resolveu pedir um delivery para seu irmão e suas filhas. Ligou:

- Aí é da pizzaria do Giuseppe? - Carlos perguntou ao atendente.

- Sim!

- Gostaria de fazer um pedido.

- Qual seria o “predido”? - Disse um atendente atrapalhado.

- Uma pizza de cogumelos, por favor.

- Ok, uma “prizza de cogrumelos”.

Quando o atendente estava quase anotando o pedido, a filha mais nova exclamou:

- Papai, eu quero pizza de muçarela!

E a sobrinha mais velha disse logo em seguida:

- Eu também!!!

O tio concordou com Carlos e justificou:

- Mas, queridas, vocês gostam tanto de pizza de cogumelos.

- Gostamos, mas queremos de muçarela.

- Pedimos uma pizza de cogumelos e depois uma de muçarela, pode ser? - Sugere o tio.

- Promete?

- Prometo!

Então, Carlos pediu a pizza...

Quando a pizza chegou, o tio colocou a sua máscara, passou álcool gel nas mãos e desceu para pegar a pizza.

Ao voltar para o apartamento, higienizou a caixa da pizza, lavou as mãos e todos se sentaram à mesa.

As meninas comeram com vontade e, quando terminaram, a filha mais nova exigiu:

- Pai, e agora podemos pedir a pizza de muçarela?

- Filha, estamos satisfeitos. Pedimos na próxima - explica o tio.

- Você prometeu pai e promessa se cumpre.

As meninas insistiram até eles concordarem. Carlos, todo sorridente, achando que sabia de tudo, teve que ceder no final. O tio foi pedir a pizza:

- Aí é a pizzaria do Giuseppe?

- Sim, é aqui, qual é o seu pedido? - Diz o atendente exemplar.

- Gostaria de uma pizza de muçarela – pede o tio desanimado.

- Algum acompanhamento? Ou só a pizza de muçarela?

- Não, só a pizza mesmo.

No final, as meninas tinham conseguido o que queriam... afinal, as crianças de hoje sabem bem o que querem.

5º ano A

TARDE

5º ano A

TARDE

Emergência

Luís Fernando Veríssimo

É fácil identificar o passageiro de primeira viagem. É o que já entra no avião desconfiado. O cumprimento da aeromoça, na porta do avião, já é um desafio para a sua compreensão.

- Bom dia...

- Como assim?         

Ele faz questão de sentar num banco de corredor, perto da porta. Para ser o primeiro a sair no caso de alguma coisa dar errado. Tem dificuldade com o cinto de segurança. Não consegue atá-lo. Confidencia para o passageiro ao seu lado:

- Não encontro o buraquinho. Não tem buraquinho?         

Acaba esquecendo a fivela e dando um nó no cinto. Comenta, com um falso riso descontraído: "Até aqui, tudo bem.". O passageiro ao lado explica que o avião ainda está parado, mas ele não ouve. A aeromoça vem lhe oferecer um jornal, mas ele recusa.

- Obrigado. Não bebo.         

Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar voo, ele é aquele com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! no rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela. Mas o pior está por vir. De repente, ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz. "Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás."

- Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.

Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.

- Isto é apenas rotina, cavalheiro. -

Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai, meu santo.         

"No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos."

- Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?    

"Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente." -

Respirar normalmente?! A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças — e ele quer que a gente respire

normalmente.         

"Em caso de pouso forçado na água..."

- O quê?!         

“...os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e..." - Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!

- Calma, cavalheiro.

- Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!

- Cavalheiro, por favor. Fique calmo.

- Eu estou calmo. Calmíssimo. Você é que está nervosa e, não sei por que, está tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que, aliás, também parece consternado e levemente azul.

- Calma! Isso. Pronto. Fique tranquilo. Não vai acontecer nada.

- Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante.

- Certo. Ninguém mais vai falar em banco flutuante.       

Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a respiração, e pede desculpas. Perdeu a cabeça.

- É que banco flutuante é demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado. Fazendo sala no meio do oceano Atlântico!        

A aeromoça diz que vai lhe trazer um calmante e aí mesmo é que ele dá um pulo:

- Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa!

 Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Ele fica rígido na cadeira. Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço. Pergunta se pode receber a sua comida em dinheiro. Deixa cair a cabeça para trás e tenta dormir. Mas, a cada sacudida do avião, abre os olhos e fica cuidando a portinha do compartimento sobre sua cabeça, de onde, a qualquer momento, pode pular uma máscara de oxigênio e matá-lo do coração. De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.

- Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo.

Neste momento, à nossa direita, podemos ver a cidade de...

Ele pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto:

- Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!    

Emergência 

Beatriz Vargas pereira Poças, Theo Palma Salvestrm

Luisa Tie Fujiwara Hirai.

É fácil identificar uma passageira de primeira viagem em tempos de pandemia: é a que já entra no avião com medo. O cumprimento da aeromoça, já é um desafio para sua compreensão.

- Bom dia, aqui é obrigatório o uso de máscara o voo inteiro.

- Eu já estou com máscara, é cega, filha?

- Senhora, voar em tempos de pandemia pode ser estressante, quer um chá?

- Não, eu não estou estressada, você é quem está.

Ela faz questão de esterilizar o banco. Depois tem dificuldade com o cinto de segurança porque está cheio de álcool gel e está escorregadio.

- Não encontro minha máscara, minha máscara meu Deus!!!

- Aconteceu alguma coisa, senhorita?

- Eu perdi minha máscara, e agora? Não chega perto de mim.

- Posso te dar uma reserva, quer?

- Não, vai que todo mundo tocou nessa máscara!

Acaba perdendo a máscara e aceita a reserva que a aeromoça lhe ofereceu. Depois fala com um falso riso “e até aqui tudo bem”. O passageiro ao lado explica que está tudo esterilizado no avião e que vai ficar tudo bem. A aeromoça lhe oferece mais álcool gel, mas ela recusa:

- Obrigada, já tenho, com cheirinho de morango.

Toda vez que alguém espirra no avião a moça dá um pulo, pega o álcool gel e atira por toda sua volta com a expressão de Santa Mãe do céu. Com o avião no ar, dá uma espiada para ver se tem alguém sem máscara e se arrepende, muitos estão. Mas o pior está por vir, de repente, ela ouve outro espirro e entra em desespero.

Depois de muito desespero, eles chegam ao aeroporto, mas é preciso medir a temperatura antes de desembarcar.

- Esta passageira está com febre.

A moça quase desmaia e é encaminhada para o posto médico para fazer o exame. Um dos médicos tenta acalmá-la e traz o resultado do exame:

- Calma, senhora, você precisa ficar aqui por uns dias, você está com Covid.

Agora ela desmaia de verdade e, quando acorda, lhe perguntam:

- Senhora, você está bem?

- E eu estou com cara de quem está bem? - Eu estou com Covid e você quer que eu fique calma?

Assim que terminam os quinze dias de isolamento, o irmão vem buscá-la no hospital. Quando o avista, a moça vê que ele está sem máscara e lhe dá várias bolsadas na cabeça dizendo:

- Pega a máscara, Roberto, pega a máscara! Por que será que é tão difícil as pessoas usarem máscara neste país? Se fosse para pular Carnaval todo mundo estava usando!

Emergência 

Lara Hissatugue de Araújo, Lívia Bernardineli Prieto

Theo Cardia Okuhara Canalonga, Olívia Vale Accunzo

É fácil identificar o passageiro de primeira viagem na quarentena. É o que já entra no avião desconfiado, sempre passando álcool em gel. O cumprimento da aeromoça, na porta do avião, já é um desafio para a sua compreensão.

– Bom dia...

– Como assim?

Ele tenta achar uma fileira vazia, mas acaba esquecendo e senta em um lugar qualquer. Comenta, com um falso riso descontraído: "Até aqui, tudo bem." A aeromoça explica que o avião ainda está parado, mas ele não ouve. Em seguida, ela lhe oferece um jornal, mas ele recusa.

- Obrigado. Não estou com fome.

Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar voo, ele é aquele com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! no rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela. Mas o pior está por vir. De repente, ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz. "Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás."

- Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.

Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.

– Isto é apenas rotina, cavalheiro.

– Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai, meu santo.

- Não se esqueça do distanciamento social, fique longe de outras pessoas - lembra a aeromoça.

Na mesma hora, uma pessoa passa ao seu lado.

“No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos."

- Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?

"Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente."

- Respirar normalmente?! A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças - e ele quer que a gente respire normalmente.

“Sempre leve a mão e passe álcool em gel.”

No mesmo instante, a aeromoça ao seu lado espirra.

- Corona, socorro!

- Fique calmo, cavalheiro- pede a aeromoça com gentileza.

- Eu não quero morrer!

- Fique calmo, isso, respire, respire.

“Só tirem as máscaras quando forem comer e as troquem a cada 2 horas.” (Continua a voz misteriosa)

- Eu esqueci a máscara, eu esqueci a máscara! AAAAAAAAAAAAAAAAAAA! - grita o passageiro enquanto procura o objeto no meio da bagagem de mão.

- Fique calmo, cavalheiro.

- Socorro!

- Você quer que eu traga uma máscara para você?

- Obrigado, você salvou a minha vida!

A aeromoça diz que vai lhe trazer uma máscara e um calmante porque está muito agitado. E aí mesmo é que ele dá um pulo:

- Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa!

Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Ele fica rígido na cadeira. Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço. Pergunta se pode receber a sua comida em dinheiro. Deixa cair a cabeça para trás e tenta dormir. Mas, a cada vez que alguém passa ao seu lado, abre os olhos e fica cuidando a portinha do compartimento sobre sua cabeça, de onde, a qualquer momento, pode pular uma máscara de oxigênio e matá-lo do coração. De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.

- Senhores passageiros, aqui fala o comandante, aaaaaatchimmmm!

Ele pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto com todas as suas forças:

- Coloca o braço na frente, Araújo, coloca o braço na frente!

No restaurante

Carlos Drummond de Andrade

 

– Quero lasanha!

Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultra minissaia – entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.

O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.

– Meu bem, venha cá.

– Quero lasanha.

– Escute aqui, querida. Primeiro escolhe-se a mesa.

– Não, já escolhi. Lasanha.

Que parada – lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro e depois encomendar o prato:

– Vou querer lasanha.

– Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.

– Gosto, mas quero lasanha.

– Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?

– Quero lasanha, papai. Não quero camarão.

– Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?

– Você come camarão e eu como lasanha.

O garçom aproximou-se e ela foi logo instruindo:

– Quero uma lasanha.

O pai corrigiu:

– Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.

A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:

– Moço, tem lasanha?

– Perfeitamente, senhorita.

O pai, no contra-ataque:

– O senhor providenciou a fritada?

– Já, sim, doutor.

– De camarões bem grandes?

– Daqueles legais, doutor.

– Bem, então me vê um chinite, e pra ela… O que é que você quer, meu anjo?

– Uma lasanha.

– Traz um suco de laranja pra ela.

Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.

– Estava uma coisa, hem? – comentou o pai, com um sorriso bem alimentado.

– Sábado que vem, a gente repete… Combinado?

– Agora a lasanha, não é, papai?

– Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?

– Eu e você, tá?

– Meu amor, eu…

– Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.

O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.

No restaurante

Arthur Caetano Natalino, Laura Bardelli Teixeira

Melissa Rodrigues Gravena, Ricardo Gadel Dia

– Quero estrogonofe! Mamãe, você esqueceu a sua máscara.

Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultra minissaia – entrou decidida no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria estrogonofe.

A mãe, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.

Logo na entrada, o garçom informa:

- Senhora, não é permitido entrar sem máscara

- Vou lá colocar a minha máscara no carro, filhinha. Espere aqui.

- Fique na frente do sensor de temperatura, doutora?

A menina questiona:

- Tem alguma coisa para medir a temperatura de baixinhas?

- Sim, é claro, calma, filhinha.

O garçom pergunta:

- Posso medir sua temperatura mocinha?

- Quero estrogonofe- dizia enquanto o garçom media sua temperatura.

– Meu bem, filha, venha cá.

– Quero estrogonofe.

– Escute aqui, querida - explica pacientemente a mãe. - Primeiro, escolhe-se a mesa.

– Não, já escolhi. Estrogonofe, mas a mesa tem que ser em um ponto bem ventilado, tá?

Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro e depois encomendar o prato:

– Vou querer estrogonofe.

– Filhinha, por que não pedimos isca de peixe? Você gosta tanto de isca de peixe.

– Gosto, mas quero estrogonofe.

– Eu sei, eu sei que você adora isca de peixe. Por que a gente não pede umas iscas bem bacanas, tá?

– Quero estrogonofe, mamãe. Não quero isca de peixe.

– Vamos fazer uma coisa. Depois das iscas a gente traça um estrogonofe. Que tal?

– Você come isca de peixe e eu como estrogonofe e, mãe, para de coçar o olho, vai pegar Covid!

O garçom se aproxima para anotar os pedidos:

– Quero um estrogonofe.

A mãe corrige:

– Traga uma isca de peixe. Caprichada.

A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer estrogonofe? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:

– Moço, tem estrogonofe?

– Perfeitamente, senhorita.

A mãe, no contra-ataque:

– O senhor providenciou as iscas?

– Já sim, doutora.

– Não escutei você com essa máscara estranha. Acho que vou tirar.

Todo mundo grita:

- Não, não, não (bem rápido).

- Vai trazer tiras de peixe bem grandes?

- Daqueles legais, doutora.

- Bem, então me vê uma Coca-Cola e para ela… O que é que você quer, meu anjo?

– Um estrogonofe.

– Traz um suco de morango.

- Mamãe, você esqueceu de lavar a mão!

Elas vão ao banheiro e a garotinha diz:

- Mamãe, lava as mãos direito, hein!

Com a Coca-Cola e o suco de morango, veio a famosa isca de peixe, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.

– Estava uma coisa, hein? – Comentou a mãe, com um sorriso bem alimentado - Sábado que vem, a gente repete... Combinado?

– Agora o estrogonofe, não é, mamãe?

– Eu estou satisfeita, filha. Umas iscas tão saborosas! Mas você vai comer mesmo?

– Eu e você, tá?

– Meu amor, eu…

– Tem de me acompanhar, ouviu? Pede o estrogonofe

A mãe baixou a cabeça, chamou o garçom e pediu. Aí um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. A mãe não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem. E o garçom comemora:

- Viva a Senhorita Estrogonofe!

Vó caiu na piscina 

Carlos Drummond de Andrade

Noite na casa da serra, a luz apagou. Entra o garoto:

- Pai, vó caiu na piscina.

- Tudo bem, filho.

O garoto insiste:

- Escutou o que eu falei, pai?

- Escutei, e daí? Tudo bem.

- Cê não vai lá?

- Não estou com vontade de cair na piscina.

- Mas ela tá lá...

- Eu sei, você me contou. Agora deixa seu pai ficar descansando.

- Tá escuro, pai.

- Assim até é melhor. Eu gosto de fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede à sua mãe para acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.

- Pai...

- Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro Rio, e você custa muito a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.

- Vó tá com uma vela.

- Pois então? Tudo bem. Depois ela acende.

- Já tá acesa.

- Se está acesa, não tem problema. Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta direitinho pra casa. Não vai errar o caminho, a distância é pequena e você sabe muito bem que sua avó não precisa de guia.

- Por que cê não acredita no que eu digo?

- Como não acredito? Acredito sim.

- Cê não tá acreditando.

- Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse: tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?

- Não, pai, cê não acreditou ni mim.

- Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso. Eu acreditei, viu? Estou te dizendo que acreditei. Quantas vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei, mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.

- Não te chamei de mentiroso.

- Não chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma bobagem. Sua avó caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.

- Ô pai, cê é de morte!

O garoto sai desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada.

Daí a pouco chega a mãe:

- Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?

- Até você, Fátima? Não chega o Nelsinho vir com essa ladainha?

- Eduardo, está escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo que tirem ela de

lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando muito, e se não for depressa ela vai ter uma coisa! Ela morre, Eduardo!

- Como? Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído.

Saiu correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d’água:

- Mamãe, me desculpe! O menino não disse nada direito. Falou só que a senhora caiu na piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.

- Está bem, Eduardo – disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa.

– Mas de outra vez você vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito, você é que teve um acesso de burrice, meu filho!

Vó saiu sem máscara

Gabriel Sapienza Vilela Faria, Luiza Yumi Segalla Iwata

Rafaella Lasanha Lima

Começa mais uma manhã tranquila no apartamento, o pai já trabalha desde bem cedo no computador, confortos de home office. No quarto, a mãe dorme um pouquinho mais, pois trabalhou até tarde para garantir o revezamento do computador e a menina acorda para mais um dia de ensino remoto. Mas e a avó, onde está?

- Pai, a vó saiu.

- Tudo bem, filha.

A garotinha insiste:

- Escutou o que eu falei?

- Escutei sim, tudo bem e daí?

- Não, não estou com vontade de ir para rua.

- Mas ela tá lá!

- Eu sei, você já me contou, agora deixe seu pai continuar trabalhando.

- Mas, mas ela está lá fora, pai!

- Eu sei que isso é ruim, filha, agora deixe seu pai trabalhar em paz que daqui a pouco tenho reunião.

- Pai!!!

- Minha filha, vai para aula que sua mãe acorda daqui a pouco e não vai querer ver você fora da aula.

- A vó tá sem álcool gel- insiste a menina.

- E daí? -responde o pai - Depois ela pega.

- Mas ela já tem álcool gel! Só que não usa.

- Se já está não tem problema, depois ela passa e fica limpinha.

- Por que você não acredita no que eu digo?

- Acredito sim, quem disse que não acredito? - O pai responde, já nervoso.

- Cê não tá acreditando...

- Você falou que sua avó saiu e eu acreditei sim, tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?

- Ah, você está me enchendo, vamos parar com essa história, eu acredito, quantas vezes vou ter que te dizer? Você acha que estou dizendo que acreditei, mas estou mentindo. Fique sabendo que seu pai não é um mentiroso.

- Não te chamei de mentiroso - discorda a filha chateada.

- Não chamou, mas está duvidando de mim, agora vamos parar com essa bobagem! Sua avó saiu e daí? É um direito dela. Eu só não saio porque estou com muito trabalho!

- Pai, você é muito chato - diz a garotinha desolada.

Dali a pouco chega a mãe:

- Eduardo, você sabia que Dona Marieta saiu de casa?

Já sem paciência, o pai responde:

- Até você, Fátima! Não chega a menina com esta ladainha?

- Eduardo, está nublado, sua mãe saiu para a rua sem máscara no meio do isolamento!

- Como essa menina não me lembrou do isolamento e da máscara, ela só me disse que minha mãe tinha saído!

Eduardo saiu correndo e não deixou a mãe nem entrar no mercadinho:

- Mãe, você saiu de casa sem máscara, os médicos disseram que não pode, lembra?

- Ah, está bem Eduardo, a distância é tão pequena, eu só ia até o mercadinho.

Abraçados, voltam juntos para casa e esta família nunca mais desrespeitou as regras do isolamento...

5º ano B

TARDE

O antes e o depois

João Wainer e Cesar Gananian

Foi a partir de um trecho do documentário O antes e o depois, de João Wainer e Cesar Gananian, que uma equipe de criação do 5º ano BT se reuniu, durante as aulas on-line de trabalho diversificado, para escrever duas crônicas. Feito isso, em dois grupos, todos/as da classe organizaram, também durante os nossos encontros on-line, a gravação de um vídeo que apresentasse a leitura dramatizada de cada um dos textos produzidos.

O homem do amanhã

Equipe de criação da crônica 1: Beatriz Berger Macatrão, Carmem Mai Suzuki Scarpelini Vieira, Felipe Carlini Bastos, Gustavo Favero Lopes e Mariana Piçarra Wiggers

21 de março de 2020, pandemia. Eu estava no meu trabalho de caixa em um dia normal, estava tudo correndo bem, pelo menos eu achava... Até que entrou um homem que começou a olhar de um modo diferente para as pessoas que estavam no supermercado. Depois de um tempo, eu notei que ele estava ficando mais estressado, veio um cliente, passei um arroz e, quando fui olhar novamente, ele já estava em cima da esteira do caixa, na minha frente, e todo mundo olhando com muita atenção, tinha até gente filmando com o celular.

- Pessoal, por favor, gente, isso aqui tá lotado, vocês tão de brincadeira, né? Tem gente aqui morrendo no hospital, na Cachoeirinha... Olha isso, ó! Tão comprando as coisas mais que o excesso! Tem gente que só vai receber no dia cinco e não tem dinheiro pra comprar! E quando chegar aqui não tem mais nada!

Até chegou um homem de boca aberta e queixo caído, com trinta pacotes de papel higiênico, álcool gel, produtos de limpeza, sacos de arroz, de feijão, carne... perguntando para mim se isso já tinha acontecido outra vez...

Olho para ele, respiro fundo e digo não, mas penso igual ao homem que estava ali protestando. Nem todo mundo tem coragem de chegar no supermercado e gritar sobre isso.

Mais tarde, quando terminou meu turno, fui diretamente para minha casa para ver se tinha algo novo no UOL, como sempre. Cheguei, abri o site e encontrei o que tinha acontecido no mercado.

Eu me aprofundo mais, descubro que seu nome é Luciano Berinjela e outras informações. É um mobilizador social na periferia, decidiu ajudar fazendo um projeto muito legal na pandemia, juntou familiares, conhecidos e amigos para doar alimentos aos que não têm dinheiro para comprar o que precisam.

Penso no que posso fazer. Olho na cozinha, nos armários e na geladeira. Não tem muita coisa, arroz é o que tem mais, três pacotes, separo um para doar.

 

Excesso

Equipe de criação da crônica 2: Beatriz Berger Macatrão, Carmem Mai Suzuki Scarpelini Vieira, Felipe Carlini Bastos, Guilherme Busato, Gustavo Favero Lopes e Mariana Piçarra Wiggers

 

21 de março de 2020, pandemia. Fui de carro para o supermercado, enchi meu carrinho e fui para a fila do caixa, quando um homem começou a gritar:

- Pessoal, por favor, gente, isso aqui tá lotado, vocês tão de brincadeira, né? Tem gente aqui morrendo no hospital, na Cachoeirinha... Olha isso, ó! Tão comprando as coisas mais que o excesso! Tem gente que só vai receber no dia cinco e não tem dinheiro pra comprar! E quando chegar aqui não tem mais nada!

Aí, eu olhei para ele e fiquei assustado, tinha até gente filmando com o celular. Perguntei para a moça do caixa:

- Moça, isso já aconteceu antes?

Ela me respondeu que não. Fiquei em dúvida se ela concordava com o homem que protestava... Fiquei irritado, eu não concordava! Nós temos direito de comprar o que precisamos! Esse homem é doido, não sabe quem está comprando mais do que o excesso e quem necessita! Eu não vou ficar sem nada também! É melhor uma parte mal que todo mundo mal! Eu não vou largar meus trinta pacotes de papel higiênico, álcool gel, produtos de limpeza, sacos de arroz, de feijão, carne....

Mais tarde, quando cheguei em casa, minha irmã veio correndo me mostrar um vídeo que tinha saído no UOL sobre o que aconteceu no mercado. Quando olhei, eu estava aparecendo com o carrinho cheio.

Fiquei olhando para mim com o carrinho lotado e pensando nisso por um bom tempo.

Minha irmã ficou com cara de brava, então, perguntei para ela o que tinha de errado e ela foi para o quarto.

No dia seguinte, fui fazer café, abri o armário e percebi que tinha menos comida, desconfiei que era ela.

- Julia, foi você que pegou a comida?!

- Sim, fui eu mesma! Algum problema? Tinha muita comida! Eu peguei o que a gente não precisava e doei!

 

Equipe de criação da crônica 2: Beatriz Berger Macatrão, Carmem Mai Suzuki Scarpelini Vieira, Felipe Carlini Bastos, Guilherme Busato, Gustavo Favero Lopes e Mariana Piçarra Wigger

© 2020 por Carandá VIvavida 9a Imaginar-te - Conexões em (re)construção - Montagem/Design Juliana Carnasciali - Jullipop e Rosana Rocha